sexta-feira, 5 de abril de 2019

Aprendendo a ler

Eu não nasci ontem, foi meu corpo quem se descobriu. Ainda um pouco distraído, sem muito jeito pro peso que carregava, cambaleou e tremeu. Mas a voz que vinha de fora dizia: não cai, porque você não veio colada ao solo. Você é também ele.

De alguma maneira, o corpo já sabia onde estava o apoio e sorriu. Um sorriso forte, um brado. Dava pra sentir o calor, uma chama que queimava de dentro, mas não ardia. Era um acalanto leve e dissipador da névoa. Não tinha vento, mas sim arrepio. Um zumbido leve, como quem está submerso e atento. De alguma maneira, era um corpo aninhado pela água e pelo fogo. Um corpo tranquilo, sem apuros nem receio do vazio.

Uma descoberta bonita, que reabriu porteiras esquecidas no passado e mostrou que o perigo não estava além. Existe sim um horizonte ainda a ser alcançado... Mas o caminho não é solitário nem perigoso: é uma mata viva, que precisa de cuidado pra ser aberta, pois é um sistema de todos nós. Cada caminho que traçamos requer uma reorganização dos outros já abertos. Tudo é possível, só precisamos entender os fundamentos de cada passo.

Houve tempos em que eu só acreditava na verdade e na mentira. Arrebatamento era necessário para saber que o sentido era real e a desilusão precisava ser profunda para entender que a negativa estava ali. Como na pele eu nunca tinha sentido realmente a dor dos extremos, fui levando incrédula a mediocridade do tudo entender. Muitas certezas vieram e se acomodaram, na ilusão de fortaleza e sabedoria. Ontem mesmo todas as certezas se moveram e o que restou foi vapor, que não cabe entre os dedos e pede para ser dividido, mas é sempre presente e se faz ver.

E agora o hoje parece realmente ser o mais importante dos tempos, pois ele vem com um respeito grande ao ontem e uma admiração gigante ao amanhã. No entanto, não os quer ser. É firme e presente. É o que me faz pertencer e querer... pra ensinar meus camaradas.




sexta-feira, 9 de março de 2018

E é paz a paz da pomba?

Comecei a meditar pra tentar expurgar todo o mal que vinha saindo pelas palavras, da cabeça quente. Sentei, estiquei e comecei: diafragma-boca-diafragma-boca-diafragpulm-boca-pulmão-diafragboca-boca. Espera. Bocejo e soluço. Volta. Fecha os olhos e a moça da música repete: não pense em nada, olhe para o mar. Pára tudo: como o mar é nada? Realmente, eu fecho os olhos e consigo ver o mar: infinito, calmo e confuso, corrente, vívido, brilhante, cheiroso, uma tormenta que alivia. Não pode ser nada: ele é muito pra mim. A visão oscila entre o azul, o verde, o roxo e o vermelho. Uns rasgos brilhosos aparecem rápido e não consigo distinguir se é branco ou amarelo, mas não importa: de novo é muito difícil não ser nada. O interessante é que hoje, diferente de ontem, não é impossível manter os olhos fechados... O corpo que todo dia é tão presente, tão falho, dolorido, hoje assenta e é pesado, mas, incrivelmente, não sente nem vento, nem carícia, nem aperto. Ele é, mas não está lá. Começo a sentir a importância dele, como reage, como afeta e é afetado. Não, não sinto vontade de dançar, mas sim de estar ali integrada, sentindo cada parte e conhecendo protuberâncias e cavidades, texturas, caminhos e...

Fez um barulho lá fora: eles ainda estão aqui. Ainda estão. Não consigo conter o calor que sobe na cabeça: eles ainda estão aqui!

Os olhos já começam a doer e não suportam mais: como é que consigo dar conta de entender tantos brancos? Tudo aqui é simples demais.

Abro a janela: branco. Fecho a janela: branco, branco, branco, branco, branco, branco. Eu gosto, mas hoje tá sufocando. Quero um abraço...

- Oi, tudo bem? Me abraça!
- ...
- Na verdade, não abraça não, eu não gosto.
- Oi! Abraço!
- ...

Abri e fechei todas as portas da casa só pra ver se o tempo passava. Não passa. Olhei a janela e, pela primeira vez, vi que a rua tem pelo menos dois andares. Um gato foge, três pessoas correm, um homem de camisa com as mãos no bolso - como é que ele não tá com frio? - um carro branco e um preto andando no meio dos carros brancos e pretos, todos parados. Me divirto, porque passou correndo e fazendo estardalhaço um bem rosa metálico. Ainda há vida...

O pássaro preto que todo dia gritava agora tá ali na árvore, que finalmente começou a florir. O verde já nem é mais dos que me chamam atenção, acho que fiquei cega de tanto ver. Esqueço mesmo e só lembro da história que tenho escutado ultimamente, daquele dos olhos azuis, que quer ser homem, mas está certo de que é bicho, mas sente amor pela Baleia e receio de suas crias serem igualmente bicho. Acho que é isso que me sobe à cabeça e fervilha: será que estou virando bicho também? Me aflige a perspectiva de chegar a noite e não conseguir proferir três palavras novas. Com as portas abri também dicionário, enciclopédia, livros e quadros. Sinto que não funciona e é até um pouco ridículo seguir tentando. Mimese de si é que não dá.

As veias estão pulsantes, prontas pra se abrirem. Eu vou gritar, eu vou gritar: VOA!

sexta-feira, 2 de março de 2018

Dias brancos

Ao que tudo indica, o brilho na retina vem às sete e quarenta e três. Sempre, sempre, sempre dezessete minutos antes dos pássaros cantarem. Acompanham: um inconveniente e abrupto suspiro, três cínicos tremores nos pés-nas mãos-no peito e uma inexplicável vontade de expelir. Levanta e volta duas vezes olhando como é bonito, como te faz bem, como precisa urgentemente começar a retribuir além do abraço. Despedida. Levanta outra vez. O esforço não tem medida, tanto que o corpo pede: volta. Por favor, volta. Vamos remarcar os passos das noites que andamos pelas pedras pelos oceanos revimos os amores ex-amores muitas portas trincos céus mansões festas, todas as cores. A mão volta e combina: um é esperança; dois é prosperidade; três é mal augúrio; quatro reveja suas atitudes; cinco oportunidades; seis medo; sete trabalho árduo; oito faça novos amigos, nove cuidado com a saúde, dez não se preocupe, você verá os resultados em breve. Já passaram das dez. Todos, todos, todos os dias promete que no próximo vai acompanhar a luz assim que ela te tocar, mas, no fim, sempre acha outra maneira de repetir o que foi ontem, não tem muito jeito. Passa muito e o corpo pede. Não é sempre, mas pede. Depois promete que vai recomeçar, sente que tudo é possível, olha pro alto e respira uma cinco setenta vezes. Aí de novo pede: volta só mais um poco, por favor volta. Tremor, suspiro e estômago. Engole seco e aceita: hoje não é o dia. Observa escutando oito, trinta, noventa e dois ou sei lá quantos minutos de experiências e concorda que realmente precisamos mudar, mas quem tá errado é o mundo. Desespera: por quê? POR QUÊ? Ativa o medo e cadê, cadê, cadê, cadê, cadê, cadê, cadê? Não está preparada. Já passou do tempo e ainda não está preparada. Seis e trinta e oito e o coração aperta: outra vez e nenhuma nova. Precisa urgentemente retribuir além do abraço, mas já sente que a pele o pelo os olhos os narinas a boca o verbo, tudo isso já não é o mesmo ou suficiente. Volta, por favor, volta. Três frases e meia e aceita. Um suspiro longo, três tremores sinceros e a aceitável vontade de dormir.

sexta-feira, 13 de outubro de 2017

Apneia

Na boca está o silêncio que, desatinado, entra forte. Entope garganta, narinas e orelhas. Faz a cabeça desandar e doi, doi, doi. Todos os dias ele pulsa, repuxa e escancara na pele tudo aquilo que deseja ser. Ferida aberta, mas estancada.

Respiração número um.

No peito está o sentido que, sem rumo, bate violento. Sabe da sua força e fica sob qualquer circunstância - não titubeia. De hora em hora conta seus passos - mesmo não tendo direção - porque precisa saber que segue caminhando. Perseverante, segue rumo ao incerto.

Respiração número dois.

Nas costas está o ofício que, sendo obstinado, já nem sente o peso próprio. Combate os ventos e, cego, segue a busca pelo inatingível, porque suas metas sempre são as que não existem. Vai pelo caminho colhendo todas as opções, pois todas parecem verdadeiras até que doem e caem. A questão é que caem todas, de uma só vez. Irrecuperável.

Respiração número três.

...
...
...

Antigamente costumava passar.

... No ventre está o vazio que, oco mesmo, prefere assim ser. Com carinho e orgulho agradece e se despede. Não sente o amargo da língua alheia, que insiste em querer aterrissar, como se aqui fosse pista central. Oferece rota alternativa e apaga as luzes delicadamente. Aqui está a paz.

Respiração número quatro.

Na perna está o curso que, ligeiro, não consegue ter a paciência de esperar. Balança, agita, estremece. Segue, segue, segue. Inquieto, faz o corpo tremer. Não daqueles tremores bons, mas agudo, afiado e pungente. Por horas a fio e não para: a caminhada é insustentável.

Respiração número cinco.

No pé é só pontada. Ferve tanto, que só resta o grito.

Respiração número seis.
...
...
...

Por que não está passando? SETE, OITO, NOVE.

A retina iluminou, escuridão.


quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

NADA

A fé cega é o mal da raiz. Gritar, espernear e chamar de feio não convencem. Ao contrário: compete.

Todo dia vejo (entenda-se por ver ler, olhar e observar) e sinto (por favor: na pele, na cabeça e no coração) o apelo pela vontade de pertencer. Mas o pertencer do ódio, mesmo quando travestido de palavras como amor, gratidão, humanidade e compreensão. Ninguém se entende e isso é o que se quer.

As palavras são duras, mas não são suficientes. A risada é juíza, a bufada é irônica e o ato é excedente. A sofisticação do egoísmo é latente e, pior, de todos os lados. Mas se os lados são cara e coroa mesmo, não é difícil entender o porquê.

Por cara entende-se olho, nariz, boca e tapa. Coroa é ouro, contestável, inimigo. E os dois estão presos, costa a costa, compartilhando espinha dorsal e com altas tendências suicidas que, por falta de coragem e excesso de orgulho, culminam apenas em pequenos atos mutilatórios, que se necessitam aparentes para que todos vejam.

E vemos. Todos vemos. Todos os dias vemos surgir cantos de boca eriçados, inspira e expira contundentes, deleto, deleto, deleto e assim, enfim, falo sozinho.

E quem é deus senão palavra? A palavra expansiva, que toma num arroubo toda a significância do ser e, como num milagre, assertivamente chega a todos que conhecemos. E chega bem, chega aceita e é quente. Pelo menos a um e os cem mais que o cerca.

A vara está cutucando os tigres só pra ver se eles, bobos que são, atacam e derramam o leite para no fim dizer: deve-se chorar pelo leite que derramaram. E a culpa é toda deles, tigres malvados, animais insensíveis e feras irracionais, que não pertencem ao plano nem sabem a palavra. Palavra divina, palavra racional e relativa única e exclusivamente ao polegar opositor que segura a vara.

Nem quem inventou deus nem quem inventou a razão: no facebook ninguém é sábio nem humano.

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

2 de fevereiro

Parece até ferrugem, mas é puro esquecimento. Porque quando o vento vai em popa a âncora perde peso e parece nem existir. Desfigura.

Houve dia desses (ou esses dias) muitas fábulas quase vividas e de merecimento a contar. Mas o fluxo é intenso e a correnteza não cessa. Mas pior mesmo é o vento, que soprando assim levinho nem deixa o sol queimar. E aí é isso: dia seguinte e pele em abrasão.

Há muito tempo que não olhamos pro mar. Assim dessas miradas fixas, de sonhos inconstantes e o desejo de além. Não que os sonhos não estejam e nem sejam fortes e encantadores. Na verdade, tá assim.

Começaria agora um discurso da saudade - aquele velho e eficiente - mas a verdade é que não tem. As condições estão favoráveis: a contemplar, a nadar e, até mesmo se quiser, a sumir. Não tem turbidez: hoje o mar é azul até no pé.

E a onda traz memórias que em segundos se vão: chegando alegram, partindo orgulham.

Hoje nem o céu vai levar o chão: no horizonte tátil os olhos fecham e deixam a água bater leve, brilhante e tranquila.

É que tá pra peixe, baleia e sereia.

terça-feira, 22 de outubro de 2013

Abstração não alcançada

De todas as vozes, a que menos reflete é a gritada. De todos os gestos, o que menos marca é o bruto. De todos os ódios, o amor é quase total.

Cinco traços de incoerência. Total ou parcial, não importa: já deu nó. Desses de marinheiro, que não aperta, mas é impossível desatar sozinho. Um nó sobreposto a outro. E a outro. E a outro.

Braços, pernas, pescoço e garganta.

Paralisa, fragiliza, doi. A pontada é dada com firmeza, vontade e precisão. O pior é saber que tudo isso às cegas, pelo treinamento constante, infinitamente repetido, cheio de rimas apoéticas - mas autodotadas de uma rima tão rica, que quase enganam.

Quase.

Aprende-se desde cedo a ler cartilhas. Aprende-se que entender é concordar. Pior: aprende-se que concordar é justamente discordar do que está fora (que dentro tá tudo certo).

E aí grita, grita, grita. Embrutece. Três murros e um soco. No útero. No abdômen. No peito. Na cara. Com todo amor que o maior dos ódios pode dotar.

Alongamos a caminhada. Pé com pé, tentando alinhar. Tentando olhar o foco. Tentando, tentando tentando. Mas é que a natureza - criada, existente e humana - distrai. Abstrai. Subtrai.

O caminho já não é mais reta ou curva ou círculo. Não existe mais o fluxo - nem sanguíneo. A máquina sozinha já sonha, o sonho sozinho já vive e a vida sozinha já é.

Ele quer olhar pra fora, mas não consegue sair de dentro. Quer viver o grande, mas ainda pensa no pequeno. Quer se espalhar, mas é contido: só conhece o soco - curto como ele é - de movimento. Quer gritar bem alto, mas não sai do vácuo. Quer, quer, quer. E insiste.

Mas a teimosia é minha, poeta.

quinta-feira, 15 de agosto de 2013

São dois pesos e uma medida

Parte 1 (afetada, pesarosa, agoniada, que só consegue chorar)

Às vezes o que dá vergonha não são as palavras, mas a incapacidade de usá-las sem conseguir atingir o ponto.

- Mas é que parece que meio pensamento serve pra entendimento completo. -

Tempestade aqui no quarto: tem um nó na garganta que não se pode desatar. É uma desrazão de passado, é uma infantilidade absoluta, é um medo em culpa, é chorar sem ter por que. O resultado é murro em ponta de faca, não compreensão do leite derramado, pedra dura furada.

E como que num assombro, faz todo sentido: longe dos olhos, perto do coração.

Numa ordem de importância é difícil sempre escolher que sentido deixaria de lado. Toda a vida pensei que falar fosse menos importante que ouvir, que estava logo atrás de sentir, que, por sua vez, era menos importante que ver. Dias assim toda a ordem sai de cena e a cegueira, que geralmente tanto me apavora, parece até um espaço de conforto e reflexão e aí, como que num susto, todas as palavras saem assim desmedidas, desmensuradas e, pior, incompreendidas.

Mas aí pode até ser que nem medo - como o medo é conhecido - seja. Nem aquilo que se diz como prova de carinho. É recalque. Do mais puro e forte, de repulsa incontrolável e fatal.

E, se não proferi a peito nu o que era no momento, cometi o pior dos erros: deixei crescer e amargurar, assim sem o menor cuidado. A distância ficou pequena, o tempo já nem mais sentido faz e, ainda, o espelho da culpa se formou. Adverso, desenfreado, impositivo, acusador.

Vou tentando controlar. Fico louca.

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Parte 2 (entojada, competitiva, displicente, que se acha mais mulher)

De início, nem é nada: girls just wanna have fun. Mas é que naquele meio tão cheio de opções e que, não gosto de admitir mas, aparentemente, sou um pouco menos, é aí que vou procurar meu lugar ao sol. Afinal, vai à luta quem quer (apesar de eu não saber exatamente o que).

Vou de salto com poder. Meu cabelo é reluzente, minhas pernas são incríveis, meu cansaço é quase aparente, mas sou mulher, eu sou forte, eu sou eu: a leoa preparada. A fertilidade pura, a fêmea naturalmente eleita. No instinto, vou à caça. Olho fundo bem  nos olhos de cada um, dando o meu recado e proclamando: dancem por mim.

Eles dançam. Todos eles dançam.

Elejo. 1, 2, 3. Temos sempre que garantir a reserva: se o mundo é dos homens, os homens são meus. Acho.

E my pussy é o poder.

Se não me quer é gay.
Mas ah, não falei que me quer?
Se não me quer, é um idiota.
Eu disse, ele vinha como um cachorrinho.
Se não me quer, tem outra.
Mandei o recado e ele entendeu: quem manda aqui sou eu.
Se não me quer... e agora? Não me quer.
Mas segue mandando flores, chamando de linda, fingindo que o mundo não existe e esperando que eu pergunte por quê. Mas não vou, não vou, não vou.

Eu tenho orgulho. E está ferido.

quinta-feira, 16 de maio de 2013

Carangueijo

Existem os dias e existem as conversas. Existe o conforto e existe a vontade extrema de fuga. O que é tristemente engraçado é justamente o surgir de tudo ao mesmo tempo agora. 

Não que nunca. Nem que só. Mas é o que é.

Feliz, feliz, feliz. Força. Sorriso. Força. Sorriso. Esforça. Gargalhada. Agora: ninguém te quer aqui. É só um daqueles de soslaio, como quem quer esconder um comentário obscuro explodindo pra não ser aberto. Desses mesmo que se quer falar naquela discrição tão insistente, que se torna o centro de tudo e todos. 

E é aí que vem o clarão. Uma baforada quente contra os olhos, dessas que fazem um barulho grave, ensurdecedor, e que esquentam e congelam pé e cabeça e, de novo, tudo ao mesmo tempo agora.

Forço. Esforço. Força.

Deixa pra lá. Um minuto é o suficiente de silêncio mútuo. Na verdade, mais que suficiente: é demais. Ninguém aguenta.

Em geral, o gosto pelo ser é bem vindo. Em geral, hoje não.

Mas não é por escolha. É por ocasião (que fez o gato, o rato, o cão e o peixe).

E volta um tempo (que é o futuro), que é importante e que preenche.

Não é que não tenha queridos, muito menos vazio completo. Nem é que não queira falar: a voz é que não sai alta e compromete os mais surdos.

Eu tenho saudade é dos meus amigos. E é tanta que nem quero novos: hoje, só vocês prestam.

terça-feira, 2 de abril de 2013

Fabulous

Já chegou um momento em que não são mais os dias em progressão que contam: a distância já bateu faz tempo, rodopiou e pulou num salto que nem mais as palavras poderiam descrever.

É a hora de contar o tempo reverso e perceber que falta menos por vir do que por ir: até que enfim.

Existem presenças que estão, seriam ou passadas. A sua sempre é. Não que distâncias sejam necessárias (definitivamente não), mas que saudade doi já nasci aprendendo.

O que é de bom no nosso contemporâneo é que um oceano pode ser um rio e um ano pode ser: "Ai, que lindo!"

O mar e os morros te esperam numa aquarela que mancha a vida num tom pastel e um traçado leve, rápido e que revela toda a poesia.

Vai chegar num estalo e contando mais boas que novas - que as fotos já disseram, mesmo sem necessária conversa frequente.

Meus amigos vão e vêm.

Ainda bem.

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

na raiz

Questão única: Sumi^1 Deliberadamente sumi.

Não pela falta de medidas, pelo desapego ou descarinho.
- Sumi foi pelo sufoco, pelos apelos e (É pela saúde) gritos de inverdades.

/

Mesmo que não desalivie a expressão serena em marca, tudo queima e transparece em chama. No(a):

1) silêncio velado;
2) cortina fechada;
3) sorriso cerrado.

E sumi.

- anos, meses e até medidas incontáveis - E não é pra provar que não precisa provar (nem pra testar quando não estar perto já é demais).

Não foi em presença, mas em espírito.

{Todo dia um toque menos}

Hoje, nem sorriso +
Nem satisfação +
Nem desejos +

= uma equação complexa*

domingo, 27 de janeiro de 2013

De uma só tacada, três cajadadas

Fui aqui na esquina e voltei: não me enganaram com gato por lebre. De parda, tenho a vida na noite e, de escaldada, sei bem que as aparências nem sempre enganam.

Se o dia foi duro, não me preocupo: o leite já se derramou. Nada de chorar: tudo vai ser diferente. Além do mais, quem espera sempre alcança e, no fim, riremos juntos e melhor.

Eu bem que não entendia muito a cegueira do coração. Até que hoje, nesses exemplos torpes, descobri que uma grama de demonstrar vale mais que a tonelada do conselho. Ainda bem que, se cair, do chão não passa.

Sempre tento por fim no tom dramático. Mas como sei que quem não chora não mama, vou colhendo em sussurros de lamento cada grão que me enche o papo.

Não que vá sair por aí gritando "tô fraco, tô fraco" ou cutucando várias onças com a vara curta. Não vou seguir falando em prata, quando me pagam ouro pelo silêncio. Pensei rápido, falei devagar, pois de gata, sou malandra: como peixe sem ir à praia.

E se vovó já dizia, fiquei com o poeta: porque se conselho é ruim porque é de graça, prefiro logo receber aquele que me julga pelo que sou e não por quem ando.

Pois agora quero mandar um beijo pro papai, pra titia e pra todos aqueles que estão me assistindo semeando tempestade em pequenos ventos.

Um abraço da Xuxa (porque beijinho é tchau tchau).


domingo, 25 de novembro de 2012

Spread the love

O mais bonito de amar em conjunto é que chega uma hora em que o amor se expande em porções unitárias. E nessa jornada carrega consigo todas as responsabilidades agregadas aos sentidos.

E é aí que entra a beleza: antes do carinho só já fizemos uma oficina da vida em coletivo. Nesse processo aprendemos a falar e escutar. Desenvolvemos o que considero como um das melhores capacidades que podemos ter: a simpatia.

Não é a ser simpático de sorriso fácil, dos que mostram dentes a todo e qualquer - disso até desconfio. É  sim aquela de apreender e aprender nas questões do outro e corresponder num gesto que parece simples, mas demanda muita maturidade emocional, que é o de revelar as questões pessoais e romper com a individualidades dela compreendendo o sentido como universal.

Hoje acho que é disso que se fala quando se quer dizer que ama a um amigo. Não é o amor de aceitar todo e qualquer termo, de histrionismos que justificam histerias sem razão; mas sim daquele que se entende em verdade e profundidade como é estar em outro.

Quanto mais amigos, mais compreensão. Quanto mais isso, menos crises a se preocupar: todas as cabeças pensando junto pensam melhor.


sábado, 6 de outubro de 2012

Confesso que...

Eu que tenho a cara torta, endurecendo de passagem pela vida, mas ainda meio mansa de incompreensão.
Eu que ando a passos curtos, no caminho largo de chão de poças, poços e não possos.
Que já me embrenhei, mas só de leve, num caminho que só leva a outro e que, no fim só o que tem é recomeço.
E que já chorei - e ainda choro - só de ver a fumacinha do vapor do chão no dia do pós-chuva.
E ainda nem me decidi pra que lado posso ir.

Eu que hoje levo na cabeça outros pesos que considerava impossível, mas que largo por aí aqueles que julgava de suma importância.
Eu mesma dessas ideias enrijecidas, como só aos que parecem sábio podem pertencer.
E que só falo de mim pra mim, como se a importância disso viesse num crescente que contorna todas as espécies em relação.
E que tenho umbigo, nariz e braços - que julgo meus, mas que querem botar por aí pra jogo.

Hoje eu caí contra a corrente. Nadei, nadei, nadei e voltei lá pro meio do cardume. Que desconforto!
Porque, sinceramente, aqui tá todo mundo junto, nadando a um compasso só. Mas o que querem mesmo é cada um pegar aquele pedaço de pão velho que aquele misto de sombra com brilho torto parece jogar.

A solução, por um instante pensei, seria arranjar uma espécie de lente deformadora pra tentar parecer sombra e brilho torto. Mas aí, pensei de novo, se é só pra ter o pão velho, prefiro cansar de novo e tentar o caminho oposto.

Não é possível que a correnteza um dia não cesse. Ou pelo menos descanse.

quarta-feira, 25 de julho de 2012

De antemão: já é saudade

Do que mais gosto e ao mesmo tempo odeio são desses pedacinhos de memória que me enchem em turbilhão de sentimentos e desaguam no transparecer da lágrima de um até breve! com a tonelada de um até quando?.

Até aqui, tudo em breve. Todo tempo junto é raro - e por isso valioso. Cada minuto é sentido com a precisão do tempo contado, mas que vai passando com a leveza do vento e que, quando cessa, vira furacão dos que levam tudo - até gente.

E gente pesa. Pesa muito. Porque gente não é só corpo. Sequer gente é só sentimento. Gente é tudo junto: com presente, passado, futuro - e todas as flexões, reflexões, conjugações e combinações possíveis. Gente tem memória e senso crítico. Gente tem sentido - e é controverso. Gente imagina, reflete, pesquisa, se engana, acerta e duvida: só pra imaginar de novo. Gente não para em pé, porque precisa deitar - e tampouco para deitado, porque sentado não dói as costas e correndo é bom pro coração.

E o que é o coração, senão o órgão que mais pesa quando todo o sangue chega pra ser bombeado de uma só vez só, porque na verdade quer é fugir do corpo e jorrar por todo o tempo-espaço em que está submetido a pressões de saudade. É, podem dizer o quanto queiram que é o cérebro, mas o que sinto mesmo funcionando é o peito - e um poco da barriga, cheia de borboletas.

Mas aí é outra história...

quarta-feira, 6 de junho de 2012

Justificativas

Encarando o pensamento que tenta reduzir à comunicação verbal o gesto primordial de carinho, imploro: jamais tente viver só dela. É um princípio que só tende a desenvolver enganos, desgastes e desgostos. 

Primeiro porque quando começa tudo num entendimento tão falho que há necessidade de perguntas, alerta 1: já começou errado. Segundo que, quando pra desenvolver afeto é necessário justificar em tópicos o que é carinho, alerta 2: não vai agradar. E terceiro, ainda mais cruel, quando da incerteza, que certamente a dubiedade das palavras acarretou no peito como sentimento profundo e intrínseco à relação, e então o diálogo revela-se um monólogo enfadonho (dado o vazio em resposta que tende a palavra zero), alerta 3 (e vermelho piscante): acabou.

Mas repara: o problema não é a palavra - ela pode ser linda, bem vinda e super bem colocada - mas a necessidade infinita dela. Demonstrar carinho não é explicar metodologicamente o que é carinho. Revelar vontades não requer um manual de montagem listado dos desejos. 

Um corpo pulsa. E aí as mão se posicionam, os joelhos se encontram, os peitos se encaixam, os olhos brilham, o braço passa sem que se incomode, a cabeça recai no ombro. Olhar... olhar torna-se inevitável. E não está presente só na visão, a pulsação permite o olhar do toque, do cheiro, do ouvir, do sentir. 

E aí você entende que quando se sente mais que se pensa em falar, o caminho é certo e a poesia é autoportante.

domingo, 3 de junho de 2012

Habitat Natural

E eu moro bem aqui, horizonte a frente. Há tempos sento olhando a linha perguntando se é de paralelas infinitas que o mar se toma. Há tempos me guio por um norte pra ver se o horizonte me toma numa cruzada de caminho sem volta.

E não toma.

Hoje eu sentei numa faixa que não é mais de areia. Olhei pra frente e o que tinha já não era mar. E me perguntei se o caminho das nuvens ainda era possível. Se o abismo do céu ainda suportava o peso de mais um corpo que se jogava, ou se o fato de ser peso não era mesmo (como antes suspeitava) um problema do ar.

A resposta: um raio e uma nuvem preta revelando em cores e cobrindo em chuva metade do que achava ser uma sombra no céu. E a surpresa: não era sombra, era sólido. Não era treva, era caminho.

Fui ao sul revelar o que não é mais horizonte. O caminho, ao contrário do que indicavam as pedras, ia por elas, com elas, sobre e sob elas. O caminho não era mão única - dessas monótonas, solitárias e cheias de questões de obediência - mas dispersa, variável, mutante e coletiva. Não de um coletivo que despreza a palavra de apoio, o zelo do amigo, o reconforto do desabafo. E público.

Nesse dia entendi que estou em terra firme e agradeci por não ser a distância o oceano. Pelo menos por aqui eu posso andar - já que eu não posso e nadar eu não sei.

E a chama acendeu. 

sábado, 24 de março de 2012

Desmemória

Acontece o silêncio.
...
...
...
Acontece o silêncio. Atordoa. Bate-volta-bate-volta-bate-volta-bate.
.....
Ainda acontece o silêncio.
De perguntas, de quereres, de cobranças.
... Silêncio agudo, faminto, decidido a perturbar.

É o barulho todo aqui de dentro: não me deixa pensar.

E, da implosão dos saberes, acontece o silêncio.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

E não é que chegou?

E já te olho em tão prazeroso encantamento que já nem mais assusta. Um assombro que corre por longe do peito, que figura como um rasgo no horizonte só pra se mostrar existente, mas que sequer se atreve a encostar: sabe que o momento é mágico.

A latência no peito já não é mais sinal de alerta.

Há tempos procuro racionalizar e traçar a fino bordo a linha que justifica as intenções nas relações. Fiquei anos perdida num labirinto em que, a princípio, por acreditar piamente no meu poder de localização e assegurar a mim mesma que naquele espaço-tempo o manejo era simples e lógico, dei muitas voltas em um mesmo quadrado vazio (mas repleto de informação) crendo que dali muitos frutos colhia e muita sabedoria - dessas que achava que já se nascia sabendo - perpetuava.

Quanta infantilidade.

Hoje acordo já sabendo que é dia novo e que de passo em passo o que chega em mim é autêntico. A vontade é seguir em frente, deixar os pés caminharem por si só e, mais uma vez, me levarem a um desconhecido tão positivo quanto o fizeram nessa última jornada. O sentido chega positivo, apesar das circunstâncias, muitas vezes pelo contexto local, sejam de negação.

E lá se foram duas semanas intensas de sol. Não caiu uma gota sobre mim.

Em acordar sou só sorrisos. Em dormir, só esperança. Em viver sou sonho. Em seguir tenho forças. Em repousar, a espera. Em caminhar, o sentido. Em viver, inquietude. Em esperar, esperança.

E ainda sigo assim. Mesmo que haja encalço te tempo e distância. Ainda sigo assim, de olhos que brilham e peito que brinca.





quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Desimporta o que passou

Ontem foi pesado. No momento em que tudo parecia certo, a sala ficou vazia. E eu, sentada no canto, a espera, permaneci. E dormi. Sono profundo.

Sonhei que estava de saída. Dessas que se faz sem ter rumo nem prazo, em que a única opção é olhar pra frente e estufar o peito acordando consigo que a construção de si só é feita de futuro.

E então segui. Num salto de vôo leve, desses em que se anda no ar dando a volta no infinito e ainda sobra tempo de cair sentada naquele retalho de boas lembranças, das quais cada um aqui faz parte. Continuei caminhando, a espera de que isso de aparência pretérita seguisse o meu passo presente e concordasse em ir comigo avante. O peito encheu de esperança e o passo largo partiu de novo para o infinito.

Então uma onda muito grande passou. Derrubou tudo: o futuro, o infinito, as lembranças. E eu caí do passo largo que tinha apostado no eixo vertical. Dessas quedas em que a única esperança que pode existir naquela fração do não desespero é a de que ali embaixo exista tudo, menos dor.

Caí da cama. Atrasada, acordei num temporal. Saí quase nua, desesperada pelo sabe-se lá o que. Não tinha compromissos, não tinha acordos e sequer alguém a espera.

No meio do caminho - e é meio porque foi o ponto de partida da volta - respirei e senti: é saudade.